domingo, 29 de março de 2009

XY


Eu estava a 80 km/hora. Eu e mais umas 20 pessoas. Cidade A rumo à cidade B – como se usa de referencial nos livros de física. Bilhete comprado para o horário 17h30min.
Eu em minha poltrona. Sempre me mantendo fiel a 19. Um misto de história, numerologia e neurose.
Um alguém XY passa pelo corredor. E mais uma vez. Eu, muito ocupada comigo mesma, me dou conta de que ele não passou mais. Deve ter se acomodado em algum lugar...
Para meu espanto, o lugar tinha número. Assento nº20, vizinho do meu 19.
Comentei que era um XY, não é? Um belo XY, diriam as vovozinhas! Moço bem afeiçoado, bem nascido e bem adornado. Todo de branco e óculos escuros para proteger os olhos do pôr-do-sol. E só. Aparentemente.
De canto de olho, reparei no onipresente: o inseparável telefone móvel! Celular, para os íntimos.
Este poderia ser um aproximador de possível conversa, já que eu também contava com aparelho semelhante: que diminui as distâncias e acalenta corações solitários!
Mas preferi o silêncio. E digo que valeu a pena. Em segundos, o chama-chama começou.
Tocou. XY atendeu e já desligou. De uma concisão imaginariamente jornalística.
-Oi, tudo bem? Já saí. Té!
- .
Comecei a pensar se não valeria a pena perder meus 50 km restantes em pura observação, que enrijecia meu pescoço e dava a impressão de estrabismo aos olhos alheios. A discrição cobra boa musculatura do complexo cabeça-pescoço...
Eis que entra em cena o 2º elemento. Trim...Trim... Ao som do “toque tradicional”, raro nos dias de hoje em que tudo é personalizado. De onde vinha o barulho? Sim, ele novamente. XY.
Em seu bolso direito mais um comunicador falante. Desta vez, recheado de conversa instigante.
-Oi. Já to no meio do caminho. Devo chegar umas nove e meia. Não vai ter ninguém em casa. Os meninos chegam amanhã. As aulas vão começar essa semana. Tchau!
Hum...um universitário, talvez? O XY evoluiu de surfista a universitário, quanta diferença! Mas o mistério continuava... Pela minhas contas, chegaríamos a cidade de destino às 18h45min. Onde ele iria parar às 21h30min??
Meus momentos de calmaria e exercício de lógica duram pouco. São interrompidos por uma diva que emana, curiosamente, de uma bolsa.
-And I...I...I...will always Love youuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!
Era um toque personalizado de uma passageira que estava logo atrás. Que susto! Um deleite para o riso! Estaria eu sozinha nessa agonia de riso contido na barriga? Para minha surpresa, XY compartilhava a situação de controle intenso da respiração abdominal! O canto do meu olho esquerdo flagrou o momento de íntimo compartilhamento de explosão em si mesmo. Me senti mais próxima daquela figura curiosa. Voltei a mim mesma e recomecei a investigação secreta.
Deve ser um desses figurões de balada. Organizador do “churras da facul”, pegador de meninotas e filho de empresário. Você vê quando o branco da roupa tem qualidade... E...
Putz...Putz...Putz... É a vez de um toque baladeiro dar o ar da graça nesse ônibus tão sonoro! E havia, ainda, quem tentava um cochilo...
Era o que eu precisava para confirmar a minha tese e reforçar entre minhas amigas o meu dom para adivinhação da mente XY! Ou não...
-Oi amorzinho! Já chegô? Tô indo te ver!! Já tô chegando na rodoviária e vou pegar outro ônibus até aí, tá bom? Não tem problema encarar mais uma viagem, por você eu faço tudo!! Te amo tchuca!!
...
Era hora de descer do ônibus, me confundir entre as malas e pensar em algo mais previsível para adivinhar... Esses XY...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Sem atraso...mais?!


Como diria Clarice, "Pra que esse mal estar"??

Cansei dele. Resolvi olhá-lo de frente e resolver que posso ser mais.
E vou. Te convito novamente. Mas dessa vez, não vou me lamentar para te alcançar. Que venha, e que seja como o mundo disser que deve ser!

Amém!

domingo, 22 de março de 2009

O Poder e a Glória para sempre...

Salvação. Poder. Julgamento.

À procura por respostas, caio na tentação das perguntas. Do questionamento, à beira do ceticismo.
Quem seria capaz de dar essa resposta? Ele. Não vejo credibilidade na benção virtual, por isso continuo preferindo o modo tradicional. A casa. A igreja.
Espero por uma palavra de acalento, paz para uma alma angustiada.
Mas só se fala em erro. Em remissão. Sei que errei, e por isso estou lá e peço ajuda ao Divino. E não deixo de crê-lo. Mas o espaço que antes me dava paz, agora me traz inquietude. Saí do ovo...
Não deves querer poder. Mas eles têm... Não deves julgar. Mas eles estão, a todo o momento, apontando para a culpa alheia... E se dizem a personificação da salvação.
Ele é bom, e não duvido. Mas do poder daqueles que falam por Ele, ando desconfiando.

Amém?

quarta-feira, 18 de março de 2009

A eterna insatisfação de um satisfeito.


Dia como os outros. Ultimamente, isso tem caráter de infelizmente. Infelizmente é um dia como os outros.
A fórmula da felicidade estampada no jornal e a dúvida que pulava de cabeça em cabeça naquela sala: será que dá?
Será que dá para resgatar o sonho antigo e, como menina, jogar conversa fora com o futuro? O que virá? De que adianta... Dá pra ver o sonho logo ali?
Aqui estou e sempre estaremos no stand by. Modo de espera. Tem gente que aceita pegar a senha e encarar a muvuca que vem lá do outro lado. Tem gente que senta, e espera. Esperar para conseguir. O que? Mais espera.
Vejo as coisas cansadas de esperar. Talvez seja a hora de dar a elas, mais cores. Vou até ali convidar um artista para realizar a tarefa. Talvez eu não volte com ele. Mas eu estarei nele, onde estiver. Com a chance de resgatar o único sonho que ainda tenho guardado na gaveta. Artista.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A lógica do tempo. E do medo.




Tenho certeza de que ali havia uns quarenta. Mas dependendo do ângulo, eu podia contar vinte e oito. A visão do muro da minha vizinha contava quinze. A polícia contou dez. E a televisão confirmou: era um. Mas eu juro que, logo que cheguei, eram quarenta...
Ou foi mera impressão derivada do susto.
Duas semanas tinham se passado desde minha ida ao Mato Grosso pra visitar a tia Rosa. Calor na ida e na volta. Tudo o que queria era voltar para a civilização. Civilização? Enfim, essa discussão fica para depois. Por enquanto, apenas um bom banho demorado me importava.
Cheguei em casa. Sozinha. Como sempre. Desci do carro para abrir o portão, como sempre. Ao colocar a chave no cadeado, emudeci. Como nunca.
Cadeado? Não havia mais.
Minhas mudas de plantas artificiais? Não existiam mais.
Minha rede pendurada... Continuava lá, mas uma sombra e sua criança a ocupavam com ares de proprietárias.
No corredor que dava para os fundos, a confirmação. Meu ambiente havia sido invadido. Tudo o que havia construído estava de ponta-cabeça. Não conseguia ver naquilo, sentido algum.
Contra invasores? Chamei a polícia.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh... Foi tudo o que consegui. Um grito, e o silêncio me calou.
Meia hora se passou. Contando bem, na verdade eram uns quinze minutos. Mas se for levar em conta o cronômetro, com certeza o breu não havia passado de trinta segundos.
Contra versões múltiplas e alucinação? Chamei os jornais!
Aquelas figuras dentro da minha casa... Tinham roubado minha comida, meus bibelôs e meu bom banho demorado. Minha liberdade. Meu sentido.
Mais uma vez, nada fazia sentido.
Muito tempo se passou. E até aprendi a não supor mais “tempos”. Horas, minutos, dia-a-dia.
Eu me acostumei com aquelas figuras que haviam tomado meu espaço. A Polícia também se acostumou. E o jornal, como não poderia deixar de ser, também.
Aqueles invasores haviam se unido um-a-um e me revelaram o retrato-falado do inimigo: o medo da desordem. Sem barba, sem bigode, sem filhos, sem registro algum: Ele entrou, não me pediu licença,nem sequer disse “obrigado”. Apenas reunir meus medos e fez dali sua morada.

domingo, 15 de março de 2009

Vem?


A gente vem
E não sabe pra onde vai.

Eu peço a você que venha comigo. E me ajude a decifrar os sonhos. Sonho de uma noite; de verão; de solidão; de mera imaginação. Imaginar o que não se deve e correr para os braços do não-aqui, não - agora. Fugir do provável, conversa íntima que, ao invés de monólogo, venha em diálogo. O diálogo entre mim e eu, em que ninguém precisa ser exato.
E encontrar no desafeto, a provocação. Na rotina, o improvável. E no impossível, uma meta sem distâncias.

Talvez o Você, traga mais sentido a esse egoísmo a que me proponho.

Me lanço agora.
E convido novamente:
-Vens?