segunda-feira, 16 de março de 2009

A lógica do tempo. E do medo.




Tenho certeza de que ali havia uns quarenta. Mas dependendo do ângulo, eu podia contar vinte e oito. A visão do muro da minha vizinha contava quinze. A polícia contou dez. E a televisão confirmou: era um. Mas eu juro que, logo que cheguei, eram quarenta...
Ou foi mera impressão derivada do susto.
Duas semanas tinham se passado desde minha ida ao Mato Grosso pra visitar a tia Rosa. Calor na ida e na volta. Tudo o que queria era voltar para a civilização. Civilização? Enfim, essa discussão fica para depois. Por enquanto, apenas um bom banho demorado me importava.
Cheguei em casa. Sozinha. Como sempre. Desci do carro para abrir o portão, como sempre. Ao colocar a chave no cadeado, emudeci. Como nunca.
Cadeado? Não havia mais.
Minhas mudas de plantas artificiais? Não existiam mais.
Minha rede pendurada... Continuava lá, mas uma sombra e sua criança a ocupavam com ares de proprietárias.
No corredor que dava para os fundos, a confirmação. Meu ambiente havia sido invadido. Tudo o que havia construído estava de ponta-cabeça. Não conseguia ver naquilo, sentido algum.
Contra invasores? Chamei a polícia.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh... Foi tudo o que consegui. Um grito, e o silêncio me calou.
Meia hora se passou. Contando bem, na verdade eram uns quinze minutos. Mas se for levar em conta o cronômetro, com certeza o breu não havia passado de trinta segundos.
Contra versões múltiplas e alucinação? Chamei os jornais!
Aquelas figuras dentro da minha casa... Tinham roubado minha comida, meus bibelôs e meu bom banho demorado. Minha liberdade. Meu sentido.
Mais uma vez, nada fazia sentido.
Muito tempo se passou. E até aprendi a não supor mais “tempos”. Horas, minutos, dia-a-dia.
Eu me acostumei com aquelas figuras que haviam tomado meu espaço. A Polícia também se acostumou. E o jornal, como não poderia deixar de ser, também.
Aqueles invasores haviam se unido um-a-um e me revelaram o retrato-falado do inimigo: o medo da desordem. Sem barba, sem bigode, sem filhos, sem registro algum: Ele entrou, não me pediu licença,nem sequer disse “obrigado”. Apenas reunir meus medos e fez dali sua morada.

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