
Tem gente que gosta de bicho. Tem gente que gosta de gente. Esta é a história da menina que não gostava de gente. E nem de bicho. Gostava de que, então? De sombra. A menina tinha pavor de festa. Muita gente reunida, falando de gente e sendo gente, na essência. Um dia, chegava da escola quando foi abordada pela mãe. Trazia nas mãos um convite que acabara de chegar.
- Filha, pra você. Convite. Festa de aniversário. Amanhã. Da prima Letícia.
Ficou atônita. A festa era no dia seguinte. Não haveria tempo para preparação.
Com muito custo, a menina colocou uma roupa discreta e comprou um presente mediano. Queria passar despercebida.
O salão, muito animado, ela observava de longe. Fazia tempos que não ia a uma festa. Ela dizia que era por opção. Mas, ultimamente, os convites já rareavam a aparecer. Ninguém mais se preocupava em chamar para o convívio social a mais anti-social das meninas-moças. Mas esta festa era diferente. Eram os 18 anos de sua prima, afilhada querida de sua mãe. Não teve escapatória.
Muito barulho tinha suas vantagens: dava pra ignorar os grunhidos daquela gente que dançava, daquela gente que fofocava e daquela gente que paquerava.
Mas não agüentou o martírio por muito tempo. Era hora de ir embora. Chega de gente por hoje!
Ia saindo da pista, se esquivando, procurando um corrimão para segurá-la. As luzes, sorrateiramente, iam se apagando. Bateu-lhe um desespero generalizado. Antes, com aquela confusão de luzes na pista de dança, já estava um inferno desviar da presença daquelas gentes, agora ia ficando mais escuro... Perdia os sentidos. Tinha certeza de que não ia suportar. Mas um pequeno feixe de luz vinha do teto. O efeito luminoso produziu reação inesperada. As pessoas foram ficando apagadas, pouco se via. Mas nas paredes do salão, uma grata aparição. As sombras. Os contornos coloridos sumiam e davam lugar ao alto contraste. Gente agora esfumaçada, sem forma, sem poder. Com as sombras, a menina não se sentia mais sozinha. Agora podia relaxar. A única parte essencialmente humana havia se mostrado para ela. Das sombras, ninguém consegue fugir.
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