quinta-feira, 28 de maio de 2009

A sombra da gente



Tem gente que gosta de bicho. Tem gente que gosta de gente. Esta é a história da menina que não gostava de gente. E nem de bicho. Gostava de que, então? De sombra. A menina tinha pavor de festa. Muita gente reunida, falando de gente e sendo gente, na essência. Um dia, chegava da escola quando foi abordada pela mãe. Trazia nas mãos um convite que acabara de chegar.
- Filha, pra você. Convite. Festa de aniversário. Amanhã. Da prima Letícia.
Ficou atônita. A festa era no dia seguinte. Não haveria tempo para preparação.
Com muito custo, a menina colocou uma roupa discreta e comprou um presente mediano. Queria passar despercebida.
O salão, muito animado, ela observava de longe. Fazia tempos que não ia a uma festa. Ela dizia que era por opção. Mas, ultimamente, os convites já rareavam a aparecer. Ninguém mais se preocupava em chamar para o convívio social a mais anti-social das meninas-moças. Mas esta festa era diferente. Eram os 18 anos de sua prima, afilhada querida de sua mãe. Não teve escapatória.
Muito barulho tinha suas vantagens: dava pra ignorar os grunhidos daquela gente que dançava, daquela gente que fofocava e daquela gente que paquerava.
Mas não agüentou o martírio por muito tempo. Era hora de ir embora. Chega de gente por hoje!
Ia saindo da pista, se esquivando, procurando um corrimão para segurá-la. As luzes, sorrateiramente, iam se apagando. Bateu-lhe um desespero generalizado. Antes, com aquela confusão de luzes na pista de dança, já estava um inferno desviar da presença daquelas gentes, agora ia ficando mais escuro... Perdia os sentidos. Tinha certeza de que não ia suportar. Mas um pequeno feixe de luz vinha do teto. O efeito luminoso produziu reação inesperada. As pessoas foram ficando apagadas, pouco se via. Mas nas paredes do salão, uma grata aparição. As sombras. Os contornos coloridos sumiam e davam lugar ao alto contraste. Gente agora esfumaçada, sem forma, sem poder. Com as sombras, a menina não se sentia mais sozinha. Agora podia relaxar. A única parte essencialmente humana havia se mostrado para ela. Das sombras, ninguém consegue fugir.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Entre comis e bebis


Era hora da fome. Pouco ou muito, estava na hora de comer. E pra lá seguia. Pro lugar da fome e da comida. Refeitório coletivo da empresa. Mesas aguardavam solitárias por um prato de comida. E assim se fez. Ela fez seu prato – se cheio ou vazio já não importa – e se sentou. Sagrada hora. Mais cedo que de costume, mais tarde que devia, comia sozinha e nem pensava em sair. Voltar ao batente parecia menos acalentador que um bom prato de arroz e feijão. Já havia passado um bom tempo. Era chegada a hora de se despedir. Cruzar os talheres e aguardar por um leite quente, já debaixo das cobertas. Mas este momento ainda levaria algumas horas para chegar. Já ia se despedindo das panelas e cumbucas quando seus olhos fitaram um alguém. Ídolo. Como se trata de palavra invariável quanto ao gênero, a face em questão vai seguir misteriosa. Não era bem um ídolo pessoal da pobre garota, mas alguém importante na sua escala hierárquica de níveis pessoais. Não há dúvidas de que, pelo menos naquele instante, a pessoa possuía um crachá que legitimava sua superioridade em relação a ela. Observava seu caminhar e suas preferências. No primeiro prato: salada. Por segundos, uma distração foi responsável por um dos maiores sustos que a humanidade já sofrera. Pelo menos naquele ambiente de refeitório. Ídolo vinha em sua direção e, sem nenhuma palavra ou suspiro se sentou ali. Sim, ali. Na frente dela. Em sua mesa. Na abrangência de seu círculo vital. Segundos de apreensão tomaram a pequena, que tinha pouco mais de um metro e meio. Sem rodeios, ele começava a disparar suas impressões sobre o cardápio do dia. Molhos, temperos e sucos atordoavam aquele ambiente surreal. Perguntara sobre suas preferências. Com uma desenvoltura surpreendente, a moça de cabelos claros versava sobre quitutes e adoçantes e ainda emendava outros assuntos. Era a vez das notícias do dia, logo seguidas por um comentário com a cozinheira que passava por entre as mesas verificando o gosto do cliente. Em um misto de dúvida quanto ao caráter daquela conversa, que começara sem mais nem menos, ela achou melhor parar. Havia esgotado seu potencial de simpatia em meio ao medo e angustia de fã que vivia naqueles minutos. Se despediu. Afastou a cadeira. E quando retirava o prato da mesa ouviu:
-Até mais, Camila.

Ela tinha ganhado o dia.