sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Chave


Todos estavam sempre iguais. Calça, camisa e boca-fechada. Não havia cor. Cheiro: adstringente. O silêncio ditava as regras naquele andar da empresa em que o medo parecia sussurrar a cada dígito no computador. As pessoas levavam suas vidas no marasmo de sempre. Até que uma onda de surpresa agitou o departamento.
-Fui demitida. Junto minhas coisas e saio hoje mesmo.
Disse a secretária.
Instalou-se então uma tensão velada.
A chave do banheiro. Com quem ficaria? Tratava-se de uma questão de honra. O símbolo máximo do poder. A chave estivera refém dos caprichos daquela mulher durante anos. Antes mesmo que se pudesse saber a verdadeira origem daquele objeto.
Com esta mudança de paradigmas, revelaram-se então, os monstros ocultos.
Um disputa pelo poder se instaurou.
Os gerentes, logo se ouriçaram. Foi convocada uma reunião de emergência.
O grupo do cafezinho se juntou às portas da cozinha para bolar um plano infalível a fim de subverter a ordem.
Como sempre, alguns simplesmente não se abalaram. Não viam uma grande oportunidade de vida naquela chave.
E, aquela moça antes tão poderosa e senhora do destino de todos aqueles a quem vigiava, agora fora destituída de seu cargo. Fora deposta. A massa se agitara.
Foi então que, com uma avidez surpreendente, a pequena estagiária se levantou. Em direção à gaveta foi sendo observada com espanto pela plateia incrédula. Sem mais, agachou-se, sacou a chave do chaveiro e a meteu no bolso.
Seguiu assim até sua mesa tão renegada, nos fundos do escritório, onde o sol preguiçoso se esquecia de iluminar. No móvel empoeirado, colocou cuidadosamente aquela chave. E a trancou lá dentro.
A moça sentou-se, serena como de costume, e se pôs a escrever.
Neste dia, o Sol trocou de lado.

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