quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Uma história entre ( )

(Num dia de dezembro)Reconheci-o-o pelo guarda-chuva. Em época de Sol à pino, é sempre bom tê-lo por perto. Mas ele era assim, desde sempre. Verão e Inverno são datas de guarda-chuva. Mas ele insistia neste hábito mesmo nos “morninhos” outono e primavera (naquele tempo, pelo menos, estas estações ainda podiam ser consideradas “morninhas”). A gente se conheceu naquela época da infância em que é normal menino odiar menina. Uns oito anos, por aí. Eu, sempre sentada na primeira fileira (de frente para a professora). E ele sempre na última carteira. Era conhecido como o “bundão do fundão”. Não tinha sido escolhido pelos colegas para se sentar lá no fundo. Ele havia escolhido o recanto pra ficar sozinho. Via todo mundo e sabia quando era visto (não podia ver um pescoço ensaiando uma virada...uma espreguiçada...já pensava logo que era alvo de alguma nova perseguição). Ele não estava muito diferente quando o vi esta semana. Uns 20 anos depois da primeira vez. Continuava com seu tênis surrado, a camiseta da última eleição virada do avesso, o cabelo encaracolado a lhe cobrir os olhos e o guarda-chuva, à vista, na mochila. Foi quando eu estava voltando, numa sexta-feira, de ônibus pra casa, lá na antiga cidade de meus pais. (Que ironia: eu e ele, depois de sair da casa dos pais, fomos parar na mesma cidade grande). Eu, orgulhosa de tudo que havia conquistado desde aquela época do colégio, não sabia o que pensar dele. Me parecia tão igual. É certo que havia espichado bastante, como diria minha vó, e continuado a cultivar uma barriguinha saliente (hoje de chopp, o que outrora fora resultado de assaltos noturnos à geladeira da mãe, que fazia doces pra fora). Quando me dei conta, estava eu, pretensiosamente como sempre, colocando o moço no seu devido (devido?) lugar. Lhe dei uma profissão (parecia auxiliar de escritório, pude adivinhar um crachá no bolso lateral de sua mochila) , um lar (moraria com um primo, bem ali perto da prefeitura) e um prazer (olhar a vida da pequena sacada de seu apartamento que, curiosamente, tinha uma visão privilegiada do ponto de ônibus mais movimentado do centro da cidade. Ironicamente, o local que abrigava – em meio a uma torrencial e inesperada chuva de verão – os desprevenidos, sem capa ou guarda-chuva. Ele ria muito, lá de cima, e abria seu guarda-chuva para se esbaldar em sua própria prudência).

Ele sempre fora assim, um prevenido insuportável a vigiar o tempo. E a me vigiar. Porque assim que descemos do ônibus, ele pegou o guarda-chuva da mochila, abriu-o e seguiu sorrindo pela rua ensolarada. Parecia que queria me provar seu poder. Havia me vigiado a viagem inteira. E o tempo dos meus pensamentos... (urg!)