terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ela quem?

Fadiga. Ela se via diante do espelho e se assustava com a incapacidade de coordenar a respiração. Estava ficando velha. Antes, subir o pequeno lance de escadas que a levava para a grande suíte era atividade rotineira. Não lhe tirava o ar. Agora, sozinha ali naquela casa, não era mais dona de nada. Faltava-lhe o ar.
Naquela manhã, a filha havia ligado. “Estou preocupada”, dizia ela. Então a convidou para almoçar.
Sentara para fazer as últimas palavras-cruzadas que lhe restavam. A vontade de ir à banca de jornal, assim como o ar, também lhe faltava.
Com o som da campainha, acordou do sonho breve que tivera ali mesmo, sentada no sofá. Surrado.
A filha, animada que só ela, aparecia do outro lado da grade com um buquê nas mãos e um misto de medo e alegria estampado nos olhos. Estava dando uma chance a ela. A elas.
Emocionadas, abraçaram-se.
A mãe a levava agora pelos corredores que a menina havia brincado quando criança. Daquelas lembranças infantis, só restava pó. Abandono. Tristeza. A casa já não tinha vida há muito. Ela é que não queria aceitar. Ela?
Juntas, se sentaram na mesa da cozinha. Ela – mãe - ouvia a filha com atenção, mas com os olhos perdidos entre os potes de mantimentos vazios nas prateleiras.
Ela – filha – fez então a mais óbvia das perguntas que alguém que foi convidado para almoçar pode fazer: “Onde está a comida?”.
Não, não, não.
Havia esquecido de dizer a ela que a vontade de comer, como o ar, também havia fugido. Adeus, prazer! Não venha me incomodar com suas graciosas artimanhas de sedução! Ela havia decidido há pouco que não comeria mais. Apenas se esquecera de avisar.

Ela ficou doida!Já não podia mais com aquilo. Ver a vida se desfazendo em migalhas...
Tomou-a pelas mãos e disse:
-Venha comigo, precisamos reencontrar o ar.